conto sem nome (pra ler ouvindo Pierrot The Clown – Placebo)

Sempre imaginou grandes momentos em câmera lenta. Sempre os quis em um rítmo de videoclip, sempre imaginando qual música estaria tocando. E sempre seria uma daquelas que lhe deixavam com um vácuo memorável no peito. Um vácuo que nunca conseguia entender se era bom ou ruim. Importava que era único.
Mas agora tudo se movia exatamente naquela velocidade. Mas agora todas as músicas que imaginara pareciam tocar ao mesmo tempo. Mas agora não conseguia simplesmente mudar o foco do pensamento e deixar aquilo pra mais tarde.
O ritmo não engolfava apenas um momento ideal com o qual sempre sonhara, ou sobre o qual sempre expeculara. Agora era real. Real, lento e áspero. Sabia que era definitivamente único, como sempre soube que seria. Mas por alguma razão aquele vácuo não era exatamente o que sentia antes. Era muito mais intenso. Muito mais profundo. Muito mais real.
Por mais força que fizesse, seus pulmões não conseguiam ser eficazes. Cada inspiração era desesperadora. Cada batida do coração parecia capaz de destruir todos os prédios em volta.
Enquanto isso, um muro que jamais tinha notado simplesmente se fizera presente entre seus pulmões e sua traquéia, pondo um fim em qualquer esperança de ter suas cordas vocais funcionando. Tudo que sentia, uma vez impedido de sair pela boca, mesmo que em forma de palavras desconexas e até mesmo perturbadoras, agora escorria pelos cantos dos olhos. Quente, salgado e convulsivo.
Sempre sonhara com um momento como aquele. Um “highlight” cinematográfico no meio da monotonia. E agora, quando finalmente chegara, queria nunca ter sido capaz de sequer fantasiar um momento como aquele. Mas era tarde.
Tarde e irreversível. Quando o mundo quer acontecer, simplesmente acontece. E no fundo do desespero, nos confins daquele vacuo, um sentimento ainda mais desesperador se preparava pra engolir tudo por diante. Savia que estava prestes a se conformar com as coisas como elas eram. Sabia que era irresistível. Mas sabia que até o segundo final, quando finalmente chegaria a derrota e se conformar fosse inevitável, tudo seria intenso e perene. Toda a passagem, toda a perda e toda a dor. E o mais desesperador era saber que logo passaria.
Nada pior do que saber que passa.

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