John Wilmot Rochester

Minha idéia para o início do dia de hoje consistia em escrever pra esta naba comentando sobre o quão feliz eu tinha ficado porque uma amiga minha tinha me dito que existiam vários livros do John Wilmot Rochester (a saber, o Conde de Rochester, vivido por Johnny Depp no filme O Libertino).

Mesmo ignorando o fato de que tudo que eu havia pesquisado sobre ele dizia que ele tinha escrito apenas poesia, me empolguei coma possibilidade de ler algo dele, pois eu esperava ter acesso à uma obra de singular indeccência. Sendo assim, ontem mesmo, quando obtive essa informação, dei uma olhada no site da Saravia, muito rapidamente, e descobri que realmente havia uma série bem grande de títulos assinados por ele.

Obviamente cheguei hoje e fui soterrado de trabalho em mais um Dia da Marmota. Não consegui escrever uma linha antes do meu almoço. No almoço, acelerei tudo que pude para conseguir me livrar do Catálogo Ping-Pong e acabei com 45 minutos de sobra do meu intervalo para fazer três coisas: comprar um Farroupilha (um sanduíche, não um colégio); pagar minha desgraçada conta do cartão de crédito (eles não me ligam mais por causa de atrasos, desde que o Itaú assumiu a credicar) e ir em busca de pelo menos um dos livros do bom, velho e sifilítico Conde de Rochester.

Entro no Shopping Moinho e vou direto à Siciliano. Cato um daqueles computadores de monitores engordurados e procuro o livro. Lá está: vários títulos. Pela primeira vez acho meio estranhos os títulos, mas ainda empolgado, saio da frente do monitor e pergunto ao atendente onde se encontra a Literatura Inglesa. Digo o nome do autor e o atendente diz que já volta pra me ajudar melhor. Jamais voltou o cretido. Não encontro nenhum livro na prateleira indicada.

Volto ao terminal e procuro novamente. Pra meu absoluto espanto, a sessão em que estão os livros é Religião/Crenças – Espiritismo. Automaticamente fico admirado e acho engraçado que o Conde, mesmo depois de tanta putaria, ainda conseguisse ter dado um jeito de estar, postumamente, na prateleira de religião. Caminho até a prateleira. Demoro até encontrar. Pego o primeiro livro e finalmente entendo a monstruosidade com que acabava de me deparar.

Um pouco abaixo do nome do Conde havia o seguinte escrito: “psicografado pelo médium” seguido de um nome indiano indecorável. Acho que fazia muito tempo que eu não ficava tão furioso com alguma coisa. Talvez porque eu não encontrasse tamanha afronta fazia muito tempo.

Eu tenho muito pouco respeito pelo gosto dos outros, mas pela religão eu tento ter. Não pela religião em si, mas pelo direito que a pessoa tem de querer acreditar naquilo. Eu não acredito na monstruosa maioria dos argumentos das mais diversas religiões para defender seus dogmas. Na maioria das vezes, não existe um crente capaz de se defender de críticas bem feitas às suas crenças. Mas enquanto eles ficam lá, sentados ou ajoelhados acreditando, sem problema pra mim.

Mas quando alguém pega e se aproveita da morte duvidosa de um personagem polêmico da história para vender livros, isso realmente me irrita profundamente. John Wilcot Rochester morreu não apenas de sífilis, mas de várias outras doenças venéreas e dos inúmeros danos que a bebida lhe causou à saúde. Ele viveu a vida toda como ateu, comeu todas as mulheres e homens que teve chance, e não respeitou nenhum dos princípios da moral da sua época. No leito de morte teria dito ao ouvido de sua mãe que finalmente aceitara deus.

Quando teu nariz tá caindo, tu mal consegue falar e está delirando, fica muito difícil impedir uma carola saudável de fazer com que um padre te dê a extrema unção. A veracidade no ato do conde de finalmente aceitar deus é realmente ínfima.

Mas vamos partir do princípio que no final da existência dele ele tenha finalmente se convertido. Ele aceiou finalmente os princípios de uma religião que não acredita em vida após a morte. Pelo menos não como o espiritismo prega. Por que diabos ele estaria então conversando com um médium.

Mas agora vejamos outra possibilidade: nosso bom libertino morre, podre e pobre, e se descobre um espírito, livre do corpo, livre de qualquer possibilidade de ser parado por portas. Então, em vez de seguir com suas idéias e diversões malucas ele pensa: “não! vou catar um médium e convencer às pessoas que tudo o que eu fiz não valeu a pena, jogando minhas convicções e minha vida inteira no lixo! Certo que é isso que farei!”

Sabe que não!

Palhaçadas à parte, vamos ao sério da coisa. Se a gente parar pra imaginar a nossa própria vida. Ver tudo que gostamos, tudo que fazemos, tudo por que lutamos. Todas as idéias que defendemos, todos os momentos que vivemos e que criaram, mesmo que na mente de um número não tão significativo assim de pessoas, toda a nossa história. Isso nos constitui como pessoa, mesmo depois que morremos. E um dia morremos.

Então vem alguém que jamais nos conheceu. Jamais nos viu nem um minuto na vida. Não conhece nossos gostos, não conhece nossas idéias, e as poucas que conhece, não gosta. E essa pessoa resolve, de uma hora pra outra, psicografar em nosso nome. Escrever livros inteiros que foram contra tudo aquilo que fizemos nas poucas décadas que tivemos chance de viver. Essa pessoa vai lá, e página à página nos desconstrói.

Isso é uma monstruosidade. Abrir o caixão da criatura e vestir ela de Michael Jackson é menos ofensivo que isso. Muito pior que desrespeitar a religião de alguém é desrespeitar a existência de uma pessoa.

Agora é pensar e algo que restaure a fama destruída do bom Conde.

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