Breve sessão de tortura (conto)

A sala era quente, mal iluminada e fedia. No momento, além do insalubre ecossistema usual, era frequentada por mais quatro indivíduos, sendo todos eles homens de índole questionável, mas estando apenas um deles em menor número.

Ele estava amarrado, amassado e arrependido. Claro que, como qualquer pilantra, arrependido de ter sido pego e não de ter feito a merda. Era magro, feio, barba falha e cabelo ralo no topo da cabeça. Se vestia pouco melhor que o Wally, mas aparentemente era bem mais fácil de ser encontrado, considerando a situação em que estava.

Os outros três estavam em silêncio já havia algum tempo. Um deles também estava sentado. Desfrutava, sobre o primeiro, da considerável vantagem de não estar amarrado e sangrando. Tinha a cara gorda e brutal, e era dono de todo o dinheiro que o Wally amarrado não tinha como pagar. Em pé, ao lado do gordão, estava uma coleção de músculos provavelmente animada através de algum ritual macabro. Havia sido esse brutamontes que deixara a cara do Wally combinando com a camiseta vermelha. Não dissera uma palavra, simplesmente batera com suas gigantescas e sólidas patas na cara do magrela, sem nem mesmo ameaçá-lo.

Mas, normalmente, quem está apanhando, sabe qual é a razão,  e isso costuma tornar as palavras um tanto dispensáveis.

O terceiro cara era tão adequado ao ambiente quanto o Xicão Tofani em um programa de comentaristas esportivos. Parecia uma enorme criança de três anos, perturbadoramente proporcional. Era cabeça de um bebê em alguém de um metro e setenta e quatro de altura, com os ombros pequenos e a barriga com aquele arredondado infantil. Mas não chorava, ria ou balbuciava sílabas cobertas de baba. Apenas olhava na direção do Wally como se não conseguisse ter certeza se ele estava ali ou não.

O gordo tomou um longo gole de um fedorento suco de goiaba, enquanto o bebezão se aproximava do Wally.

“Como a impossibilidade de que você me pague é uma irrefutável verdade matemática, e como você já se mostrou um completo imprestável, decidi te dar a chance de servir de cobaia pra uma ideia que meu novo colaborador aqui me apresentou na semana passada” – mais um gole. O cabeça de nenê agora estava mais próximo do Wally. Levou a mão esquerda para trás, para pegar algo no bolso da calça. Era algo enrolado em uma toalha de rosto amarela úmida, que escapou da mão dele e se estatelou no chão, fazendo um som metálico de efeito cicatrizante para o entre-nádegas do Wally.

Os músculos se abaixaram, pegaram o alicate do chão e entregaram pro cabeça de nenê, que o pegou, abriu e fechou a ferramenta testando sua resistência. Olhou Wally nos olhos. “Você consegue manter sua boca mole aberta ou precisaremos mantê-la pra você?”

Embora Wally chorasse, gritasse e babasse, sua boca não ficava aberta o suficiente para que o cabeça de nenê conseguisse trabalhar tranquilamente. Foi necessário que músculos o segurasse para que mantivesse a boca bem aberta. Até porque o cabeça de nenê era mirrado e não tinha muita força. O que fez com que levasse alguns minutos para que, apertando o incisivo do Wally com o alicate, fosse capaz de fazer o dente estourar em pedacinhos.

Entre desmaios, vômitos, choros e retomadas de consciência, foram necessários dois dias e sete pizzas para que o serviço estivesse completo. O cabeça de nenê ria de forma condizente à sua aparência cada vez que, depois de muita pressão, o dente finalmente não aguentava e estourava, como um pedaço de gelo, espalhando estilhaços por toda a sala. Gostava não apenas da sensação de apertar o alicate como do som que fazia o dente ao explodir.

Duas semanas depois, o gordo decidiu que seria mais seguro para todos se o cara de bebê fosse arremessado de sua cobertura no centro. Na queda, o corpo estragou irreversivelmente um carrinho de pipocas e um falso cedo vendedor de raspadinha.