unstoppable headache

Acordou cansado e suando. Mais desanimador que o calor era a consciência. Sabia que aquele dia teria apenas um tema. Sim, muitas coisas aconteceriam, mas apenas uma delas era o momento principal, a razão de existiencia daquele dia. O resto era nada.

Se levantou com os braços magros abraçando a si mesmo, tentando conter um frio que não sentia. Caminhou até a escrivaninha e olhou a pilha de coisas que havia organizado desorganizadamente no dia anterior, enquanto os neurônios ainda tinham disposição pra tentar a se comunicar.
Mas agora era quase meio-dia, a manhã tinha partido sem nenhum controle e sobrara apenas o problema. Apenas aquele caos. Olhava tentando não prestar atenção. Tentava não distribuir cada objeto da trilha cronologicamente em uma vida que já não mais existia. Tentava não sentir saudade. Tentava não saber o significado mesmo de um botão de camisa quebrado. Mas sabia de cor. De cor como não era capaz de saber o mais irrelevante dos poemas. E aquilo o desmontava como o mais perfeito deles.

Amaldiçoou a memória e amaldiçoou a si mesmo. E ainda assim sabia do quão inútil era. E tanta coisa era inútil. Se sentiu prestes a se perder em devaneios e por segundos tudo que desejou foi ser engolido por um gigantesco redemoínho deles. Um turbilhão incontrolável que jamais o deixasse voltar a tona. Mas era uma esperança incabível. Incabível, improvável e inútil. Como tudo.

Não gostava de sacos de lixo azul. Achava-os ridículos. Mas eram grandes e pareciam mágicos o suficiente para guardar dentro deles aquilo pra sempre. Ou pelo menos pra levar tudo aquilo pra longe. Mesmo que jamais fosse estar longe o suficiente. Maldito cérebro. Isistia em ficar tão perto. Tão vivo.

Nada em sua vida, ou na de nenhum ser humano, seria um estorvo maior do que a consciência.