É primavera…

…e com ela chega a porcaria do calor, o suor, as baratas e aquele bando de sabiás filhos-da-puta a gritar desafinadamente a partir das 3 da manhã.

Inferno!

Ainda em tempo…

Descobri que cada sabiá canta diferente um do outro. Isso me permite ter absoluta certeza que o sabiá que inferniza minha vida é sempre o mesmo. Isso me deixa com a consciência totalmente limpa, uma vez que agora eu vou mesmo matá-lo.

Eu odeio sabiás…

…e não é algo que faça parte de um ódio generalizado por aves, pássaros, anjos e outros animais penosos. É específico. Eu odeio sabiás. Acho que desde pequeno. Aquele canto inconfundível e insuportável.

Mesmo não gostando deles desde pequeno, creio que meu ódio se consolidou finalmente quando me mudei para a casa onde moro hoje. Uma porcaria dessas, por alguma razão inexplicável, tinha a mania estúpida de cantar posado na minha janela, às 3 da manhã, que costumava ser a hora em que eu ía dormir. Porque aquele monstrinho tinha que cantar logo na minha janela?

Por vezes imaginei o catártico dia em que abriria velozmente a janela e, como em um desenho animado, esmigalharia o desgraçado contra a parede da casa. Infelizmente, isso jamais aconteceu. Foram os sabiás que me fizeram antipatizar com o movimento de moradores estúpidos da marquês do pombal que atrapalhou toda a obra do esgoto no bairro floresta. Eu nem me preocupava com o fato dos dementes ignorarem que aquelas árvores vão cair, se não forem cortadas, pois a obra destruiu suas raízes. As implicações técnicas não eram nada importantes comparadas com a faixa que dizia: “ajude a proteger o refúgio dos sabiás”… ou algo assim.

Ontem à noite, enquanto trabalhava neuroticamente, vendo as horas passarem com uma velocidade assustadora, atormetado por músicas ruins que o anjo bagaceiro que fica posado num dos ombros fica colocando no meu cérebro pra azucrinar a mim e ao demônio do outro ombro, apenas uma coisa poderia tornar pior o nervosismo por ver que não conseguiria terminar tudo a tempo.

Sim. Ele. Aquele pássaro idiota começa a cantar desenfreadamente, sem parar, das três da manhã, até as seis.

Já não quero mais matá-lo. Quero capturar o desgraçado e pintar ele com esmalte de unhas. Depois pendurar ele em uma corda que fica quase ao alcance do pulo do meu cachorro, para que ele seja atormentado, sem conseguir voar pra fugir , e sem nunca ser suficientemente mordido para morrer.

Nada melhor pra aliviar o cansaço do que o bom e salutar exercício do ódio.