Brasil – País sem tendências

É surpreendente que um país como o Brasil, completamente vazio em relação à tendência, pode ser visto como fonte de inspiração para moda onde quer que seja. O Brasil é um país onde:

1) Não se pode escolher o que vestir.

Antes de dizer categoricament “ah! mas eu me visto como eu quero”, cale a boca e entenda que não. Aqui é possível se achar coisas que se assemelham com o que se tinha em mente. Na maioria das vezes a gente se veste com o que deu pra conseguir. Só existe a moda e uma pequena variação de um ou dois anos pra trás de coisas que sobraram. Dá pra comprar coisas em brechó, mas o mais provável é que se fique vestido de brechó do que se consiga criar um estilo. O pior de tudo é que a moda é ruim. A moda brasileira é inferior, e tanto não tem nem sabe o que é tendência, que sempre é uma macaqueada semi-paraguaia do que ocorreu seis meses atrás na europa (melhor opção) ou estados unidos (se quiser se vestir de assaltante e gastar uma bela grana pra isso).

– Não se pode escolher o que assistir.

“Mas eu tenho net!” Pior pra ti que paga. Em si, temos meia dúzia de canais aberto totalmente porcos que, por alguma razão inexplicável, se nivelam por baixo. A programação é um lixo. A novela brasileira atinge um novo patamar: conseguiu ser tão ruim quanto a mexicana. Quanto à tv paga… é um festival de repetições que torna bem mais simples e melhor baixar o que se gosta da internet e viver feliz para sempre. “Mas até tem uns programas bons…” Se existirem na televisão brasileira por volta de 200 programas e tivermos apenas 2 bons, então podemos dizer, sem culpa, que toda a programação é uma merda.

– Não se pode escolher o que ouvir:

Tirando míseras excessões, as rádios brasileiras são uma vergonha. Festival de propaganda e jabás que fazem a manutenção do sistema feudal cultural brasileiro. Pouca coisa presta, e o que presta produzido lá fora o s pobres DJs mal ficam sabendo. A produção musical brasileira anda, na maioria das vezes, pra trás. Todo ano resgata a tropicália, todo o ano mistura os mesmos ritmos e as mesmas tendências, se direcionando sempre a lugar nenhum. Vácuo total comparado à evolução musica que ocorreu na europa apenas em 1997.

Quando não se tem opões, não é possível se ter tendências. Uma vez que as pessoas não podem agir, ouvir, ver o que gostam, a mídia, a moda e tudo mais, não têm como seguir e notar a tendência, pois ela não existe. No Brasil a moda, e a maioria dos gostos de cada um, é ditado pela televisão. O normal seria que a TV mostrasse aquilo que as pessoas mais querem, e não que as pessoas passassem a querer o que a TV mais mostra.

É triste. Muito triste. No mundo, as gravadoras acabarão logo. Aqui, talvez nunca. No resto do mundo, a moda precisará de uma revolução para se manter. Aqui é provável que nunca aconteça. No resto do mundo, a TV terá que fazer milagre pra não perder todo o público para a internet. Aqui é bem provável que se consiga convencer o público a usar um controle remoto tosco, mal feito e ruim para acessar a internet pela TV e votar no final do Você Decide (que logo volta).

Eu odeio sabiás…

…e não é algo que faça parte de um ódio generalizado por aves, pássaros, anjos e outros animais penosos. É específico. Eu odeio sabiás. Acho que desde pequeno. Aquele canto inconfundível e insuportável.

Mesmo não gostando deles desde pequeno, creio que meu ódio se consolidou finalmente quando me mudei para a casa onde moro hoje. Uma porcaria dessas, por alguma razão inexplicável, tinha a mania estúpida de cantar posado na minha janela, às 3 da manhã, que costumava ser a hora em que eu ía dormir. Porque aquele monstrinho tinha que cantar logo na minha janela?

Por vezes imaginei o catártico dia em que abriria velozmente a janela e, como em um desenho animado, esmigalharia o desgraçado contra a parede da casa. Infelizmente, isso jamais aconteceu. Foram os sabiás que me fizeram antipatizar com o movimento de moradores estúpidos da marquês do pombal que atrapalhou toda a obra do esgoto no bairro floresta. Eu nem me preocupava com o fato dos dementes ignorarem que aquelas árvores vão cair, se não forem cortadas, pois a obra destruiu suas raízes. As implicações técnicas não eram nada importantes comparadas com a faixa que dizia: “ajude a proteger o refúgio dos sabiás”… ou algo assim.

Ontem à noite, enquanto trabalhava neuroticamente, vendo as horas passarem com uma velocidade assustadora, atormetado por músicas ruins que o anjo bagaceiro que fica posado num dos ombros fica colocando no meu cérebro pra azucrinar a mim e ao demônio do outro ombro, apenas uma coisa poderia tornar pior o nervosismo por ver que não conseguiria terminar tudo a tempo.

Sim. Ele. Aquele pássaro idiota começa a cantar desenfreadamente, sem parar, das três da manhã, até as seis.

Já não quero mais matá-lo. Quero capturar o desgraçado e pintar ele com esmalte de unhas. Depois pendurar ele em uma corda que fica quase ao alcance do pulo do meu cachorro, para que ele seja atormentado, sem conseguir voar pra fugir , e sem nunca ser suficientemente mordido para morrer.

Nada melhor pra aliviar o cansaço do que o bom e salutar exercício do ódio.

Sexta-feira…

Eu ando um mala sem alça pra festas. Acho tudo uma bosta, acho que os djs nunca mantém um padrão, acho que pessoas que não deveriam estar lá invadem a festa e que deveríamos ser realmente hostís com essas pessoas.

Felizmente a festa de sexta não foi assim. Chegamos no Mosh depois de passar no Pinguín e no Van Gogh, portanto já estávamos consideravelmente bêbados. De qualquer modo, as bandas estavam legais (o que eu consegui ver, pois não paramos muito quietos) e o som estava muito legal. Os quaisquer não invadiram a festa, o que é o melhor. Além disso, encontrei bastante gente que eu não via há algum tempo.

Espero que esta festa siga assim. Tenho certeza que enquanto não for citada no Patrola ou na contra-capa, ela estará segura. Pois é realmente bom ir a uma festa boa.